Categoria: Notícias

05 out 2020

Ponto de atenção na partilha e no planejamento sucessório envolvendo participações societárias

Fernando René Graeff

Sócio coordenador da área de Direito de Família e Sucessões de Silveiro Advogados

E-mail: silveiro@silveiro.com.br

Há muito se discute como deve ser apurado o valor das participações societárias para fins de cálculo do imposto de transmissão incidente em caso de doação ou de falecimento do sócio (ITCD). Trata-se de imposto de competência Estadual, sendo que cada Estado da Federação pode estipular as alíquotas e a forma de avaliação dos bens.

Especificamente no Rio Grande do Sul, onde as alíquotas são de 3 a 4% para doação, e de 3 a 6% para o caso falecimento do sócio, a legislação estadual estabelece que a base de cálculo do imposto é o “valor venal” dos bens apurado mediante avaliação procedida pela Fazenda Estadual. Por sua vez, a Instrução Normativa DRP nº 45/98 determina que, quanto ao referido valor venal, a base de cálculo do imposto será, no caso de transmissão de participações societárias não negociadas em bolsa de valores, o “Patrimônio Líquido atualizado, acrescido de 50% da Receita Líquida média, anual e atualizada”. Este é o método que vem sendo utilizado pela Fazenda Estadual.

Algumas decisões do Judiciário Gaúcho já vinham reconhecendo a ilegalidade de tal método de avaliação, determinando que a base de incidência do ITCD seria apenas o patrimônio líquido atualizado. Todavia, em recente decisão de agosto do presente ano, a 20ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidiu, na Apelação Cível nº 70084410463, que: (a) o método de cálculo utilizado pela Fazenda Estadual não se confunde com o método de fluxo de caixa descontado e não se reveste de caráter científico; (b) é também indevida a avaliação da participação societária com base no patrimônio líquido da sociedade constante de balanço; e (c) “o método do fluxo de caixa descontado é o mais apto a aferir o valor venal” das participações societárias.

A discussão está longe do fim. Mas eventual consolidação desse posicionamento tende a acarretar, ao que parece, duas importantes consequências no recolhimento do ITCD. A primeira, de que, em regra, far-se-á necessária a realização de perícia técnica para a apuração da base de cálculo, dada a complexidade do método do fluxo de caixa descontado. A segunda é de que poderá representar profunda mudança nos resultados das avaliações das participações societárias para tal fim. Soma-se a isso a intenção declarada do Executivo de alterar a legislação tributária estadual, no sentido de majorar o teto da alíquota do ITCD na transmissão por doação (que poderia chegar a 6%) e por falecimento (que poderia chegar a 8%).

Enfim, o que parece ficar claro é que a doação de participações societárias poderá vir a se tornar mais onerosa.

05 out 2020

PREVIDÊNCIA PRIVADA (VGBL e PGBL) É OU NÃO UM BEM PARTILHÁVEL?

A previdência privada foi instituída no Brasil em 1977 com a finalidade de complementar o Regime Geral da Previdência Social, possibilitando aos contribuintes uma fórmula regulamentada, que atualmente é regida pela Lei Complementar 109/2001.

Com o passar do tempo, verificou-se que a finalidade para a qual a previdência privada foi instituída acabou se modificando. Ao invés de ser um mero instrumento de complementação de renda na aposentadoria, os planos de previdência privada passaram a ser utilizados como modalidade de investimento (especialmente em decorrência de benefícios fiscais) e de planejamento sucessório (principalmente porque, via de regra, a previdência privada não entra no inventário e sobre seu valor não incide imposto de transmissão em caso de falecimento).

Na partilha de bens em caso de divórcio ou dissolução de união estável, não havia um entendimento consolidado dos Tribunais Estaduais, os quais ora reconheciam a possibilidade de partilha do valor acumulado pelas contribuições realizadas (entendendo se tratar de um investimento), ora reconheciam a impossibilidade de partilha (entendendo se tratar de um seguro/pensão).

Agora uma das Turmas do Superior Tribunal de Justiça (STJ) estabeleceu os critérios para definir em quais hipóteses os planos de previdência privada podem ser partilhados.

Inicialmente, em 2017, no julgamento do Recurso Especial nº 1.477.937/MG, a 3ª Turma do STJ decidiu que, nos planos de previdência privada fechados (acessíveis exclusivamente aos empregados de uma empresa ou grupo de empresas e aos servidores da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e aos associados ou membros de pessoas jurídicas de caráter profissional, classista ou setorial), as contribuições realizadas são incomunicáveis, não podendo integrar a partilha em caso de divórcio ou de dissolução de união estável. Dentre outros fundamentos, apontou o Tribunal que nessa modalidade de plano de previdência, o resgate das contribuições não é livre, somente sendo permitido se preenchidos requisitos específicos pelo participante. Além disso, sustentou-se que o princípio nuclear da previdência complementar fechada é o equilíbrio financeiro e atuarial, o qual é permeado de cálculos extremamente complexos, que consideram para a saúde financeira da entidade, inúmeras variáveis, de maneira que acrescer o regime de casamento ao cálculo desequilibraria o sistema como um todo.

Mais recentemente, em 2020, a mesma 3ª Turma do STJ, no julgamento do Recurso Especial nº 1.698.774/RS, sacramentou a incomunicabilidade dos planos de previdência fechados, mas decidiu que, nos planos de previdência privada abertos (acessíveis a quaisquer pessoas físicas, podendo ser individuais ou coletivos – os mais conhecidos são o VGBL e o PGBL), as contribuições realizadas podem ser comunicáveis, a depender do momento em que se encontra o plano. Quanto ao ponto, importante esclarecer que há dois momentos distintos nos planos VGBL e PGBL: (i) o primeiro, denominado período das contribuições, em que são realizadas as contribuições para acumulação de recursos, as quais podem ser resgatadas a qualquer tempo; e, (ii) o segundo, denominado período do usufruto, quando cessa o período de contribuições (o que dependerá do regulamento do plano), sendo que, neste momento, os participantes, em regra, podem optar pelo recebimento de uma renda mensal (que pode ser vitalícia ou por período determinado) ou pelo recebimento um pagamento único (resgate).

Neste cenário, entendeu a 3ª Turma do STJ que apenas no momento em que são transformados em renda, não sendo mais possível o resgate de todo o valor acumulado, o plano passaria a ter natureza de seguro/pensão, sendo o valor acumulado e a renda recebida, portanto, incomunicáveis e não partilháveis. A contrario sensu, enquanto resgatáveis, os planos teriam natureza de investimento, podendo o valor acumulado, portanto, ser comunicável e partilhável.

Portanto, são dois os fatores determinantes para que seja definida a partilha ou não dos planos de previdência privada: (1) se o plano é fechado ou aberto; e, (2) se há a possibilidade ou não de resgate do valor acumulado. Apenas nos planos de previdência abertos ainda não convertidos em renda (sendo possível o resgate do valor acumulado) é que as contribuições seriam comunicáveis.

Soma-se a isso, ainda, a possibilidade de utilização do plano de previdência como instrumento de fraude na partilha dos bens, hipótese na qual, se comprovada, igualmente pode implicar sua comunicabilidade.

Em conclusão, é importante destacar que  dita decisão ainda não está consolidada no referido Tribunal, e, mesmo diante do entendimento adotado pela 3ª Turma do STJ, apenas a análise das circunstâncias específicas do plano de previdência em cada caso é que permitirá definir a partilha ou não do valor acumulado em caso de rompimento da relação. Recomenda-se, por isso, cautela redobrada aos interessados na utilização de planos de previdência para suas diferentes finalidades, a fim de avaliar, com segurança, a melhor alternativa a ser seguida para cada situação ou objetivo.

30 set 2020

Novos aspectos relevantes sobre o ITBI e o ISS

Sobre o ITBI:

Em agosto de 2020, o STF avaliou, no Recurso Extraordinário n.º 796.376, o conteúdo normativo de um enunciado da Constituição Federal segundo o qual não há incidência de ITBI sobre a transmissão de bem imóvel para fins de integralização de capital, bem como em fusões, incorporações, cisões ou extinções de pessoa jurídica, salvo se a atividade preponderante dessa empresa for a imobiliária.

Ao julgar a questão de fundo que ensejou o caso, o Supremo, para além de decidir sobre o tema principal da causa, entendeu que o enunciado da Constituição permite que se identifiquem duas imunidades.

primeira diz respeito à transmissão de bens imóveis para fins de integralização de capital social em determinada empresa. Quanto a esta imunidade, segundo o STF, não há condição a ser observada no que se refere à atividade da empresa na qual o bem é integralizado. Não importa se o objeto social da empresa é a atividade imobiliária ou não imobiliária.

segunda imunidade diz respeito à transmissão de bens imóveis no contexto patrimonial de fusão, incorporação, cisão ou extinção de pessoa jurídica. Nesses casos, aí sim a imunidade é, de acordo com o que decidiu o STF, condicionada à atividade do adquirente. Se a atividade da adquirente for, preponderantemente, a compra e venda desses bens e direitos, a locação de bens imóveis ou o arrendamento mercantil, então não haverá imunidade. Do contrário, isto é, se a atividade preponderantemente for outra, haverá direito à imunidade de ITBI.

Ao alterar um raciocínio que vinha sendo tomado como consensual, julgando desnecessária a verificação da atividade empresarial da adquirente no caso das integralizações de capital social, a decisão do STF provoca uma mudança significativa de cenário. Muitos indivíduos deixavam de integralizar bens imobiliários em empresas por dúvidas quanto ao dispositivo legal acima referido. A nova interpretação da suprema corte tende a, nesse aspecto, beneficiar os contribuintes.

 

Sobre o ISS:

No final da última semana, foi publicada a Lei Complementar 175/2020, que alterou a legislação do Imposto Sobre Serviços (ISS).

As alterações introduzidas pela nova Lei Complementar afetam os serviços de planos de saúde, planos de atendimento e assistência médico-veterinária, administração de fundos, consórcios, cartões de crédito e débito e arrendamento mercantil (subitens 4.22, 4.23, 5.09, 15.01 e 15.09 da lista de serviços da Lei Complementar 116/2003). Em relação a estes serviços, a Lei Complementar institui regramento e regras de transição sobre como será destinada a receita do ISS entre o Município do estabelecimento prestador e do Município do tomador do serviço. Vale lembrar que, quanto aos referidos subitens 4.22, 4.23, 5.09, 15.01 e 15.09, a Lei Complementar 157/2016 havia alterado o local de pagamento do tributo para o domicílio do tomados dos serviços, de modo que o novo regramento estabelecido agora, em 2020, veio, na realidade, no sentido de regular mais precisamente essa mudança. Além disso, a LC 175/2020 estabelece que os prestadores dos serviços acima elencados terão novas obrigações acessórias. Haverá sistema eletrônico unificado nacional para o recolhimento do ISS, cujas informações prestadas pelos contribuintes deverão seguir as futuras orientações do Comitê Gestor das Obrigações Acessórias do ISS (CGOA), instituído pela própria Lei Complementar 175/2020.

 

28 ago 2020

ARTIGO 17, V DA LEI 14.020/2020 VEDA A DISPENSA DE EMPREGADO PORTADOR DE DEFICIÊNCIA ENQUANTO PERDURAR O ESTADO DE CALAMIDADE PÚBLICA

Desde a publicação da Lei 14.020/2020, em 07 de julho de 2020,  está vedada a dispensa, sem justa causa, de empregados portadores de deficiência (PCDs).

Prevê o art. 17 da Referida Lei:

“Durante o estado de calamidade pública de que trata o art, 1º desta Lei:

(…)

V – a dispensa sem justa causa do empregado com deficiência será vedada.”

A publicação da norma decorreu da conversão da Medida Provisória 396/2020 que criou o  Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, dispondo de medidas para enfrentamento do estado de calamidade pública, que terá seus efeitos mantidos até 31/12/2020.

Portanto, entre 07 de julho  e 31 de dezembro do corrente ano é expressamente vedada a despedida sem justa causa de empregado portador de deficiência.

Em períodos distintos daquele previsto na Lei, muito embora não houvesse garantia de emprego aos empregados PCDs, havia a necessidade de se observar atentamente o dispositivo da lei 8.213/91, em seu art. 93, § 1º que prevê, como requisito de validade da despedida, a necessidade de prévia contratação de outro empregado nas mesmas condições:

Art. 93 […] § 1º A dispensa de trabalhador reabilitado ou de deficiente habilitado ao final de contrato por prazo determinado de mais de 90 (noventa) dias, e a imotivada, no contrato por prazo indeterminado, só poderá ocorrer após a contratação de substituto de condição semelhante.

O cumprimento destas obrigações legais tem sido objeto de frequentes fiscalizações pelos Órgãos competentes.

27 ago 2020

Maurício Brum Esteves foi nomeado Data Protection Officer (DPO) do Escritório

Maurício Brum Esteves, sócio de Silveiro Advogados e especialista em Propriedade Intelectual e Direito Digital, foi nomeado Data Protection Officer (DPO) do Escritório. Maurício tem muita experiência nesse campo, estando à frente da coordenação de dezenas de projetos de adequação à nova Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), conduzidos pelo Escritório.
Com mais de oito anos de experiência, Maurício foi reconhecido como um dos advogados mais admirados do Brasil, no Setor Econômico/Bancos, do ranking Análise 500 (2019). É mestre em Direito pela UNISINOS, especialista em Direito da Propriedade Intelectual pela FADERGS e bacharel em Direito pela PUCRS. Maurício acaba de também ser indicado para coordenar a Comissão Especial da Propriedade Intelectual (CEPI – OAB/RS) e é membro da Comissão Especial de Proteção de Dados e Privacidade (CEPDP – OAB/RS) e da Comissão de Acesso à Justiça (CAJ – OAB/RS). Maurício também é cofundador do HEPPI – Hub de Estudos e Pesquisas em Propriedade Intelectual, autor do livro: “Justificação Constitucional do Direito de Autor” (Lumen Juris/2019), bem como de diversos artigos publicados em revistas especializadas.
1. O que é um Data Protection Officer (DPO)?
O DPO é uma pessoa (física ou jurídica) voltada ao cumprimento das normas / melhores práticas de proteção de dados e respeito à privacidade na empresa. Sua nomeação costuma ser exigida pela leis mais recentes, nesse campo, incluindo a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que preferiu adotar a denominação “Encarregado”.
Sua atuação pressupõe amplo conhecimento do negócio e independência para formular recomendações
que resguardem a privacidade dos titulares dos dados tratados na empresa.
Aconselha-se a indicação de um DPO por empresa, cujo nome e meios de contato devem ser publicamente
divulgados, estabelecendo-se um canal seguro de comunicação com o mesmo.
2. Quais as principais atribuições de um DPO?
As atividades do DPO consistem, basicamente, em:
• Receber requerimentos, reclamações e comunicações em geral dos titulares de dados pessoais, endereçando-os, prestando esclarecimentos e viabilizando o exercício dos seus direitos;
• Ser ponto de contato com as autoridades fiscalizatórias, referendando junto a elas as práticas
adotadas na empresa, prestando contas e respondendo a eventuais requerimentos;
• Assegurar a manutenção de registros das operações de tratamento de dados pessoais conduzidas pela empresa;
• Elaborar Relatórios de Impacto à Proteção de Dados (RIPD) para averiguar o risco no uso de
dados pessoais e a conformidade regulatória da empresa, especialmente no desenvolvimento
de novos produtos, serviços e práticas (Privacidade by Design);
• Realizar auditorias internas e proativamente estabelecer estratégias de compliance e prevenção de riscos envolvendo dados pessoais;
• Orientar e treinar os colaboradores da empresa a respeito das melhores práticas de proteção
de dados pessoais;
• Empreender medidas de resposta a incidentes com vazamento ou furto de dados pessoais,
incluindo o reporte às autoridades ou aos titulares respectivos.
3. Quem pode ser um DPO?
O indivíduo/empresa escolhido deve possuir (ou desenvolver) os seguintes requisitos:
• conhecimento jurídico-regulatório acerca da legislação e das melhores práticas em proteção de dados pessoais, com ênfase na LGPD;
• conhecimento técnico acerca dos bancos de dados e da estrutura de Tecnologia da Informação e Segurança da Informação da empresa;
• conhecimento detalhado da empresa e do seu modelo de negócio, com acesso ao mais
alto nível de cada gerência;
• conhecimento de práticas de compliance e conformidade;
• independência de atuação, evitando a ocorrência de conflito de interesse.
Quando essa atividade não é terceirizada, a função de DPO costuma ser atribuída a profissionais das áreas
de Compliance, Gestão de Riscos, Estratégia ou Jurídico.
Para mais informações sobre o tratamento de dados pessoais na Silveiro Advogados, entre em contato com dpo@silveiro.com.br.
27 ago 2020

Senado não acolhe prorrogação e LGPD deve entrar em vigor

O art. 4o da MP 959 – que prorrogava a entrada em vigor da Lei 13.709/18, conhecida como Lei Geral de Proteção de Dados ou LGPD – foi excluído do texto aprovado no Senado nesta quarta-feira, 26/08/2020, a partir do entendimento de que a matéria já havia sido rechaçada quando da votação de projeto de lei anterior. Agora, o texto deve caminhar para sanção ou veto do Presidente da República, conduzindo à vigência da LGPD, conforme era previsto na redação anterior da norma.

Anteriormente, a Lei 14.010 já havia postergado para agosto/2021 a possibilidade de aplicação de sanções pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados – ANPD. Contudo, com a vigência da LGPD, titulares de dados pessoais passam a poder exercer os direitos que lhes são conferidos pela norma, demandar o cumprimento dos deveres dos agentes de tratamento e postular reparações em Juízo.

A ANPD, a quem caberá regulamentar as lacunas da LGPD e definir os parâmetros e melhores práticas em proteção de dados no país, ainda não está em operação, o que contribui para o ambiente de incertezas.

Silveiro Advogados está à frente de dezenas de projetos de conformidade com a LGPD, em algumas das maiores empresas do país, e foi pioneira na obtenção de certificação em  proteção de dados – com louvor – junto ao European Institute of Public Administration – EIPA, em Maastricht, na União Europeia.

Maiores informações sobre o tema podem ser obtidas através do envio de e-mail para pi@silveiro.com.br.

25 ago 2020

CORREÇÃO DOS CRÉDITOS TRABALHISTAS. O QUE ESPERAR DO STF NESTA QUARTA-FEIRA?

Amanhã, 26/08/2020, o STF iniciará o julgamento com a prolação de voto do Relator, Ministro Gilmar Mendes, sobre qual deve ser o índice de correção aplicado aos créditos trabalhistas decorrentes de condenação judicial e de depósitos judiciais.

A reforma trabalhista de 2017 estabeleceu que os créditos trabalhistas sejam atualizados pela TR – Taxa Referencial. É importante esclarecer que a aplicação do art. 39, da Lei 8.177/91, que estabelece que os débitos trabalhistas sofrerão juros de mora equivalentes à TR, vem sendo afastada em razão de uma construção jurisprudencial que considera adequada a aplicação do índice de correção monetária IPCA-E – Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo Especial.

Passados quase três anos da entrada em vigor da reforma trabalhista, subsiste a controvérsia na seara trabalhista quanto à aplicação da TR, sob a alegação de que o referido índice não recompõe os valores devidos ao credor.

São quatro ações a serem julgadas em conjunto na próxima quarta-feira: Ações Declaratórias de Constitucionalidade (ADCs) 58 e 59 Ações Direta de Inconstitucionalidade (ADIs) 5867 e 6021.

Todas as ações versam acerca da constitucionalidade dos artigos 879, §7º e 899, §4º, da CLT, na redação dada pela reforma trabalhista, bem como acerca do artigo 39, caput e parágrafo 1º, da lei de desindexação da economia (Lei 8.177/91).

Os principais argumentos para declaração de inconstitucionalidade da aplicação da TR aos créditos trabalhistas são a perda patrimonial da parcela, em violação ao direito constitucional à propriedade. Os créditos trabalhistas, que possuem natureza alimentar, sofrem direto impacto dos índices inflacionários, que somente seriam recompostos, satisfatoriamente, a partir dos índices apontados pelo IPCA-E.

Por outro lado, cumpre destacar que a TR foi instituída pela Lei nº 8.177, de 1991, com o objetivo de estabelecer regras para a desindexação da economia inflacionária. A TR passou a ser utilizada também para reajustar os depósitos em Caderneta de Poupança e da conta vinculada do FGTS – Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, fazendo parte, portanto, de em um amplo sistema, o que inclui o Sistema Financeiro da Habitação e o Programa Minha Casa Minha Vida. Por essa razão, se faz necessário analisar o contexto da aplicação da Taxa Referencial, como um todo.

É importante frisar, igualmente, que o art. 39, caput e §1º, da Lei nº 8.177, de 1991, estabelece que as condenações trabalhistas sofrerão juros de mora equivalentes à TR, e de juros de 1% ao mês. Desse modo, a análise dos débitos judiciais trabalhistas deve observar o conjunto dos encargos moratórios.

Além do que, a demora na tramitação processual não pode ser considerada um “investimento” rentável ao credor.

Veja-se que a aplicação da TR, com os juros mensais de 1%, produz resultado superior ao que seria obtido com o depósito em caderneta de poupança. Já a adoção do IPCA-E, associado a juros de 1% ao mês, produz rentabilidade muito superior à de grande parte dos investimentos financeiros, inclusive investimentos de risco, conforme bem suscitado na ADC/59, sob julgamento.

Em nota técnica, a FEBRABAN, já havia bem analisado o caso. Destaca-se o seguinte trecho elucidador: “Cuida-se aqui de evitar uma transferência patrimonial indevida entre as partes tão somente pelo decurso do tempo. O ideal do ponto de vista econômico é que o indicador que a que venha a ser utilizado para esta correção tenha como propriedade o que se chama de ‘neutralidade intemporal’, ou seja, que ele preserve no tempo os valores a serem recebidos (e pagos) pelas partes em conflito, não beneficiando ou apenando nenhum dos lados da disputa”.

Convém frisar que a decisão do STF virá em meio a um cenário de pandemia, acarretando consequências socioeconômicas importantes. Todavia, como bem frisou o Nobre Ministro Relator, “O momento exige grandeza para se buscarem soluções viáveis do ponto de vista jurídico, político e econômico”. Nesse contexto, o ministro ainda evidencia que a normas constitucionais devem servir de instrumento de superação da atual crise. Desse modo, se espera uma decisão que considere as consequências desse contexto de estado de emergência social e econômico que vivenciamos.

Após o julgamento, todos os processos suspensos sob os efeitos da liminar proferida pelo ministro relator voltarão a fluir.

Decidida a matéria sub judice, a Corte poderá, ainda, sinalizar como provavelmente será o entendimento do STF acerca dos demais temas igualmente submetidos a Ações Diretas de Inconstitucionalidade oriundos das alterações legislativas inseridas pela Lei nº 13.467/17, intitulada reforma trabalhista. Portanto, a decisão poderá indicar os novos rumos da Justiça do Trabalho.

Jamile Becker Pires
Advogada Trabalhista – Silveiro Advogados

25 ago 2020

Decreto nº 10.470 prorroga a duração do benefício emergencial

 

 

O benefício introduzido pela Medida Provisória nº 936/2020 sofreu, na data de hoje, nova alteração quanto a sua duração.

A referida MP, que instituiu alternativas para o enfrentamento da pandemia e manutenção dos empregos, foi editada em abril e convertida em Lei (nº 14.020/2020) em julho. No seu escopo previa a redução proporcional de jornada de trabalho e salários e, também, a suspensão temporária dos contratos, com pagamento do benefício emergencial (Bem) pelo governo.

Com duração inicial de 60 dias para as suspensões dos contratos e de até 90 dias para reduções de jornada, a partir da conversão da MP em Lei e posterior publicação do Decreto nº 10.422 (13/07/2020) estes prazos foram prorrogados, podendo no máximo, somados os benefícios, totalizar 120 dias.

Agora, a partir do Decreto nº 10.470 ( publicado em 24/08/2020) o benefício poderá ser estendido por mais 60 dias, atingindo o período máximo, de até 180 dias, limitados à duração do estado de calamidade pública, definido até 31 de dezembro de 2020, e às disponibilidades orçamentárias.

Os períodos de redução proporcional da jornada de trabalho e de salário e de suspensão temporária de contratos que já foram utilizados até a data de publicação deste novo Decreto ficam incluídos na contagem dos limites máximos que resultam as prorrogações.

A utilização da medida em relação ao prazo referido pode ser feita de forma contínua ou intercalada, desde que observada a formalização do acordo entre empregado e empregador com antecedência de dois dias antes de iniciada a suspensão ou redução.

Guilherme Guimarães
Advogado e Sócio Coordenador da Área Trabalhista – Silveiro Advogados

Tainá Franck Sarmento
Advogada Trabalhista – Silveiro Advogados

30 jul 2020

Cassiano Menke, sócio de Silveiro Advogados, explica sobre como a Lei 14.031/2020, publicada ontem no Diário Oficial da União altera a tributação das operações de hedge

O presidente Jair Bolsonaro sancionou, na última terça-feira (28), a Lei 14.031/2020, publicada ontem no Diário Oficial da União, que altera a tributação das operações de hedge.

Atualmente, quando um banco faz um investimento no exterior, ele realiza uma operação de cobertura de risco cambial (hedge cambial) para cobrir eventuais prejuízos que podem ocorrer devido à variação do câmbio. Entretanto, a variação cambial do hedge entra na base de cálculo de tributos nacionais, como o Imposto de Renda, enquanto a variação cambial da parte protegida do investimento não era, até então, computada para fins tributários.

Como a tributação diminui o valor líquido da proteção, o usual é que o banco faça uma proteção maior que a necessária para compensar a tributação. Em situações como a atual, de menor liquidez e queda dos preços dos ativos, decorrente da pandemia de Covid-19, se houver perdas com o hedge, a instituição não realizará os ganhos no exterior para compensar as perdas no mesmo montante.

Pela nova regra, essas instituições deverão computar a variação cambial da parcela com cobertura de risco na apuração do lucro real e com inclusão na base da CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) de forma progressiva: proporção de 50% no exercício financeiro de 2021 e de 100% no de 2022.

Se você tem mais dúvidas sobre as mudanças normativas na área tributária e os reflexos delas sobre a vida das pessoas e das empresas, entre em contato conosco. Silveiro Advogados: Muito Além do Direito.